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CORTE LIMPO



Terça-feira, 24.05.16

FC PORTO 2015/16

Cedendo à tentação do revisionismo histórico, 2013/14 entrou para os livros como um ano de ressaca, conduzido por um erro de casting chamado Paulo Fonseca, e com poucos ovos, em termos de plantel, para uma omoleta melhor. O ano seguinte foi o ano zero de um projecto, com novo treinador e equipa revista e melhorada, mas o resultado foi praticamente o mesmo, salvando-se a boa carreira europeia e a manutenção da luta pelo título até à jornada 32, apesar das críticas e dúvidas que subsistiram.

A época que agora termina foi um regresso a esses dias negros de há dois anos. Quem pagou, como quase sempre acontece, foi o treinador, mas Julen Lopetegui não deixa de ter a seu favor um aspecto que em nenhum momento foi mencionado: o técnico perdeu praticamente toda a equipa de 2014/15 e teve que começar a construção de novo.

Independentemente da análise que se possa fazer em relação aos jogadores, o desagrado dos simpatizantes portistas para com Lopetegui nascia do futebol feio, cinzento, lateralizante que a equipa praticava, e só depois se chega ao capítulo dos resultados insuficientes. A verdade, porém, é que o início da temporada não foi propriamente horrendo. O FC Porto liderou o campeonato entre as jornadas 3 e 7, e tudo corria bem na fase de grupos da Liga dos Campeões. Entre os derrotados dessa sequência contavam-se os nomes de Benfica e Chelsea. A pedra no sapato foram os empates (ambos 2-2) com o Dinamo Kiev (no arranque da prova continental) e com o Moreirense (6.ª jornada), os quais deram nas vistas, uma vez que os dragões estiveram em vantagem em ambos os casos. Essas igualdades, juntamente com o já referido futebol tristonho, impediam os adeptos de dizer à boca cheia que a equipa estava no bom caminho.

Até porque se viria a verificar que efectivamente não estava. O primeiro tropeção surgiu no jogo de retorno com o Dinamo Kiev, a 24 de Novembro, no qual o FC Porto precisava apenas de um ponto para garantir os oitavos-de-final, mas saiu derrotado por 0-2, com um penálti e um lance em que Casillas não ficou bem visto. Foi o mesmo que virar a mesa de pernas para o ar. De quase apurado, o FC Porto passou a estar dependente de vencer o Chelsea em Londres, o que não viria a acontecer.

O FC Porto ainda voltaria à liderança à passagem da jornada 14, altura em que venceu a Académica (3-1) com uma exibição airosa, enquanto o então líder Sporting era derrotado na visita ao União. Essa combinação de resultados deixava os azuis-e-brancos numa encruzilhada semelhante àquelas em que várias equipas do passado se engrandeceram; o jogo seguinte era precisamente em casa do Sporting, e em caso de vitória, os dragões abririam um fosso de quatro pontos em relação aos leões. Seria aqui que a carruagem portista descarrilaria definitivamente.

A derrota por 2-0 em Alvalade (2 de Janeiro), seguida de um empate caseiro com o Rio Ave (1-1) quatro dias depois, fez o FC Porto descer ao terceiro lugar – nesta fase já o Benfica vinha em crescendo – e a situação de Lopetegui tornou-se insustentável. Ainda estavam frescas na memória as imagens da recepção à equipa no aeroporto, à chegada de Londres, em que alguns adeptos mais exaltados quase comeram o treinador vivo.

Era então o fim da linha para Lopetegui. Os dias que se seguiram deixaram claro que o desnorte do FC Porto não se circunscrevia à equipa, mas também à direcção da SAD, que demorou quase duas semanas a anunciar o novo treinador. O adjunto Rui Barros assegurou a transição, orientando a equipa em quatro jogos, salvaguardando o mais importante naquele momento. No caso, a continuidade na Taça de Portugal, numa batalha no Bessa (0-1) em que Helton foi herói ao defender uma grande penalidade nos descontos, três dias depois de uma goleada azul-e-branca, no mesmo local, em jogo da Liga NOS.

O senhor que se seguiu foi então José Peseiro, que se estreou no banco a 24 de Janeiro com uma insípida vitória (1-0) sobre o Marítimo. Sob o comando de Peseiro a equipa largou o futebol horizontal do seu antecessor, mas o técnico ribatejano não foi capaz de despertar nela a crença necessária. Cinco pontos atrás do topo no seu primeiro jogo, o FC Porto terminaria a 15 de distância. É óbvio que esse afastamento pontual resultou de desaires mais ou menos embaraçosos, que não importa aqui enumerar, mas não deixa de ser paradoxal que Lopetegui tenha sido despedido debaixo de grande contestação após ceder uma derrota e quatro empates, enquanto Peseiro assistiu a cinco derrotas e não se viu uma ponta de indignação a si dirigida.

Certamente que a vitória na Luz, de reviravolta, à 22.ª jornada, contribuiu para isso, mas foi também debaixo da sua tutela que os dragões saíram da Liga Europa, logo nos 16-avos-de-final, aos pés do Borussia Dortmund. Restava a Taça de Portugal, prova na qual o FC Porto atingiria a sua primeira final em cinco anos. Nem aí a sorte esteve com José Peseiro. Mesmo resgatando o resultado (2-2) no último fôlego, forçando um prolongamento que pareceu improvável, o FC Porto cairia nas grandes penalidades, onde Herrera e Maxi Pereira falharam, deixando os azuis-e-brancos a assistir à festa do Braga.

Mais do que todos os problemas que se possam salientar, o que o FC Porto verdadeiramente vive é uma crise de identidade. Estão a ser dados passos no sentido de a solucionar, mas ainda não é suficiente. André André e Rúben Neves acabaram por ser as primeiras pedras do desejado incremento de portugueses na equipa, com Sérgio Oliveira a aparecer mais na segunda volta. A esperança maior reside, no entanto, no jovem André Silva, a quem bastou um punhado de jogos na recta final da época para deixar marca, nomeadamente na final da Taça, onde marcou os dois golos do FC Porto, o último num pontapé de bicicleta.

Numa altura em que se precisa de portistas no plantel, apetece pensar onde andará a cabeça dos dirigentes quando se vê Hélder Postiga marcar um golaço pelo Rio Ave no jogo da 33.ª jornada, Josué fazer o segundo do Braga no Jamor e Ricardo Carvalho, do alto dos seus 38 anos, ser convocado para o Euro 2016. Sem esquecer Quaresma, que saiu para ser campeão no Beşiktaş, e Ricardo Costa, que lutou pela manutenção em Espanha pelo Granada.

Dos que cá estiveram, Casillas cometeu fífias a mais, Maicon foi de desastre em desastre até uma saída abrupta, Herrera e Aboubakar são demasiado inconstantes, Brahimi joga mais para si do que para a equipa, Corona começou bem mas desapareceu sem deixar rasto, Tello não mostrou nada e o trio formado por José Ángel, Marcano e Varela simplesmente não está à altura. Até Helton comprometeu, no seu caso na final da Taça. Falta ainda mencionar Osvaldo e Imbula, flops tão grandes que mereciam mais letras que aquelas que a palavra tem. Salvaram-se, além dos mencionados mais acima, Danilo Pereira e os laterais Maxi Pereira e Layún.

Alguns estarão por esta altura a perguntar “e a Taça da Liga”? Foi terrível, mesmo para os parâmetros do FC Porto, que foi último na fase de grupos, com zero pontos, ao cabo de derrotas com Marítimo (1-3), Famalicão (1-0) e Feirense (2-0), estes últimos da II Liga.

Num paradoxo final, foi o FC Porto quem obteve a mais longa sequência sem derrotas nesta edição da Liga NOS, com 14 jogos, correspondentes às primeiras 14 jornadas. Naturalmente que não vale de nada, mas é uma tímida prova de que, apesar de tudo, a qualidade existe no plantel azul-e-branco. É imperioso que a estrutura dos dragões resista a enveredar mais uma vez por uma limpeza de balneário, porque mesmo não havendo um ou dois nomes de qualidade em posições-chave, o que falta realmente é alguém com capacidade de dar aos jogadores espírito de grupo, coesão, consistência, crença… no fundo, identidade.

 

Contas finais

Campeonato: 3.º lugar, com 23v, 4e, 7d, 67gm-30gs, 73pts

Taça de Portugal: finalista vencido, após grandes penalidades, frente ao Braga

Taça da Liga: afastado na fase de grupos, com três derrotas em três jogos

Europa: 3.º lugar na fase de grupos da Liga dos Campeões; saída da Liga Europa nos 16-avos-de-final, diante do Borussia Dortmund

 

Para mais tarde recordar

29.09.2015, Liga dos Campeões: vitória por 2-1 na recepção ao Chelsea ainda de José Mourinho;

10.01.2016, jornada 17 – vitória no Bessa por 0-5; dérbi mais desnivelado desde o 0-6 de 1981/82;

12.02.2016, jornada 22 – vitória na Luz por 1-2, a primeira dos dragões em casa do Benfica desde 2011/12;

21.02.2016, jornada 23 – ao bater o Moreirense por 3-2 depois de estar a perder por 0-2, o FC Porto consegue a sua maior reviravolta na I Liga desde 1975/76.

 

Para esquecer

24.11.2015, Liga dos Campeões: quando tudo parecia encaminhado para o apuramento, os azuis-e-brancos perdem em casa com o Dinamo Kiev (0-2);

02.01.2016, jornada 15 – ao perder em Alvalade por 2-0, o FC Porto perdeu também a liderança da classificação, para não mais a alcançar. Os dragões não vencem em Alvalade desde 2008/09;

06.03.2016, jornada 25 – a derrota por 3-1 em Braga praticamente arredou o FC Porto da discussão pelo título, pese embora a matemática ainda não o confirmasse;

03.04.2016, jornada 28 – derrota caseira frente ao lanterna vermelha Tondela por 0-1.

 

Marcadores

Campeonato: Aboubakar 13; Herrera 9; Corona 8; Brahimi 7; Danilo Pereira 6; Layún 5; Varela 3; Maicon, Marcano, André André, Sérgio Oliveira 2; Osvaldo, Hyun-Jun Suk, Evandro, Maxi Pereira, Rúben Neves, André Silva 1. Dois auto-golos de adversários.

Taça de Portugal: Bueno, André Silva 2; Tello, André André, Aboubakar, Brahimi, Rúben Neves, Hyun-Jun Suk, Sérgio Oliveira, Chidozie, Marega 1.

Taça da Liga: Aboubakar 1.

Liga dos Campeões: Aboubakar 3; André André 2; Maicon, Brahimi, Tello, Layún 1.

 

Números e curiosidades na Liga NOS

Líder em seis jornadas; não marcou em cinco jogos; não sofreu em 13 jogos; conseguiu séries de 9, 7 e 6 jogos sempre a marcar; uma série de seis vitórias consecutivas; uma série de cinco jogos sem sofrer golos, a melhor ex æquo com outros três emblemas; uma série de sete jogos sempre a sofrer golos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Miran Pavlin às 19:00




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