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CORTE LIMPO

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Segunda-feira, 25.05.15

FC Porto 2014/15 – 2.º lugar – 25v-7e-2d, 74gm-13gs, 82pts

Pela primeira vez desde a época 1988/89 o FC Porto termina sem conquistar qualquer troféu. Se 2013/14 foi uma desgraça que não permitiu aos portistas mais que resignação, este ano a diferença para o primeiro posto foi tão ténue que abriu espaço às mais diversas interpretações e apontares de dedo. Pode ir-se pelo treinador, quer por ter rodado demais a equipa titular sem que houvesse um núcleo duro formado, quer, numa fase mais avançada da época, já com um onze-base definido, por fazer alterações importantes em jogos cruciais. Pode também pegar-se nas corriqueiras queixas da arbitragem, que especialmente durante o primeiro terço da competição acumularam decisões polémicas que favoreceram o Benfica.

Quando se perde um título por três – ou menos – pontos podem encontrar-se mil e uma justificações, mas a principal razão para o fracasso portista é a falta de empatia entre os jogadores. A qualidade está lá, caso contrário o FC Porto não teria a melhor defesa da Liga, nem sequer conseguiria os restantes números com que terminou a campanha. No entanto, o FC Porto não tem uma equipa. Tem antes um conjunto de jogadores a quem falta um pouco mais de entreajuda, que por si só faria uma grande diferença na imagem que passa para os adeptos.

Mas não só. Notou-se com bastante clareza a falta de identificação com aquilo que é o FC Porto. Falta aquela garra que tantas vezes no passado fez os jogadores darem as mãos e preferirem quebrar que torcer na perseguição aos grandes objectivos. O facto de alguns dos nomes mais importantes estarem no Dragão apenas por empréstimo pode servir de justificação, lado a lado com outros jogadores que porventura terão a cabeça numa saída para campeonatos mais mediáticos e não vêem o FC Porto como mais que um trampolim.

Esta questão entronca na política de contratações do clube, que dura desde 2004 e que passa pela descoberta de talentos no mercado sul-americano para lapidar no Dragão com vista a uma venda milionária. Danilo é o mais recente exemplo deste modus operandi, que traz consigo o desperdício da formação, e por arrastamento, da mística que só os homens da casa conseguem incutir. Durante os anos de Jesualdo Ferreira, André Villas-Boas e mesmo de Vítor Pereira o modelo funcionou, e foram muitos os estrangeiros de qualidade que se identificaram com o FC Porto ao ponto de deixarem tudo em campo.

O filão parece estar a esgotar-se. Sinal claro de que é necessária uma mudança de agulha que traga mais portugueses ao plantel, preferencialmente da casa. Ruben Neves é um talento precoce, mas mostrou que é possível fazer com sucesso a transição das camadas jovens para a equipa sénior. Se abriu caminho – e os olhos dos dirigentes – para outros homens da formação, a começar por Gonçalo Paciência e Ivo Rodrigues, só o futuro dirá.

Conforme se depreende, fora do campo erguem-se muitas dúvidas em redor do FC Porto. Dentro das quatro linhas o cenário não foi tão negro quanto no consulado de Paulo Fonseca e Luís Castro, mas os resultados práticos não foram muito diferentes. Apesar de ter dado muita luta, o FC Porto fraquejou em dois momentos capitais, nos quais não aproveitou as abébias dadas pelo Benfica. Primeiro na jornada 26, ao empatar na Choupana quando os encarnados tombaram em Vila do Conde, e depois na penúltima jornada, altura em que o empate no Restelo deu de bandeja o título ao Benfica, que curiosamente também empatou. Em ambos os casos o FC Porto esteve em vantagem no marcador.

Foram esses jogos, mais que os três empates entre as jornadas 4 e 6, que custaram caro ao FC Porto, se bem que essas igualdades tenham desde logo deixado os dragões com uma distância pontual que não recuperariam. Por falta daquela atitude que só a identificação com o símbolo do clube pode trazer. Ao longo do percurso na Liga o FC Porto dominou a maior parte dos jogos, goleou com alguma frequência, mas foi raro o encontro em que se pôde dizer que os azuis-e-brancos foram excepcionais.

Torna-se tentador pensar que o único jogo em que o FC Porto realmente acendeu a chama do dragão foi a recepção ao Bayern Munique. O jogo caseiro com o Basileia nos oitavos-de-final também foi francamente bom e teve grandes golos, contudo, e não retirando mérito à boa carreira europeia, os restantes jogos na Champions deixaram igualmente no ar a sensação de que o FC Porto poderia ter dado um pouco mais. Desastre de Munique à parte.

A equipa atingiu o pico da forma entre Fevereiro e inícios de Abril, coincidindo com as eliminatórias europeias, mas vacilou na menos oportuna das alturas, como se descreve mais acima. Repetindo ideias já veiculadas, faltou atitude. Alguém terá captado o sinal?

Lopetegui porventura falhou ao não conseguir unir os jogadores em torno de um objectivo maior. O técnico ter-se-á igualmente agarrado em demasia a algumas arbitragens infelizes, focando o seu discurso nesse factor, antes de fragilizar um pouco mais a sua posição – que já de si era perigosa devido ao afastamento prematuro da Taça de Portugal frente ao Sporting – ao envolver-se num bate-boca com Jorge Jesus, a propósito de comentários jocosos do timoneiro benfiquista acerca do nome pouco usual do treinador azul-e-branco.

Em abono de Lopetegui, diga-se que terá sido o único a sair em defesa do grupo nos momentos de maior aperto. Nem os dirigentes, nem o capitão Jackson Martínez, nem Helton ou Quaresma, os membros com mais história no plantel, deram a mão ao treinador. Jesualdo Ferreira viveu situação semelhante na tristemente célebre temporada 2009/10.

A nível individual, Jackson fez um tri de Bolas de Prata com os seus 21 golos e foi novamente o abono de família do ataque, com Aboubakar a cotar-se como um bom substituto enquanto o colombiano esteve lesionado. Ainda que individualista, Brahimi foi excelente na primeira metade da época, caindo de rendimento depois da ida à CAN. Danilo e Alex Sandro foram finalmente laterais a sério e Casemiro assumiu-se como um trinco de combate à altura de Fernando, mas quem sobressaiu foi Óliver Torres, graças ao seu fino trato de bola e leque de soluções. Seria um óptimo investimento para a próxima época, mas não depende apenas do FC Porto, uma vez que o jovem está emprestado pelo Atlético de Madrid.

Outro dos emprestados, Tello, só a espaços esteve na melhor forma, nomeadamente no início da segunda volta. Herrera também subiu e desceu de rendimento, tal como Ruben Neves e Martins Indi. Na baliza Fabiano foi titular indiscutível até o pesadelo de Munique o precipitar para o mesmo esquecimento a que Reyes esteve votado. Evandro e Ricardo foram competentes e Maicon esteve ao seu nível, mas José Ángel, Campaña e Quintero passaram ao lado da felicidade, enquanto Adrián López foi um fracasso completo. Marcano é um caso à parte; não é mau, mas será suficientemente bom para altos voos?

Marcadores na Liga

Jackson Martínez 21 (1gp); Tello 7; Óliver 7; Brahimi 7; Quaresma 6 (4gp); Danilo 6 (1gp); Aboubakar 4; Herrera 3; Casemiro 3; Martins Indi 2; Quintero 2; Hernâni 2 (mais 4 pelo Guimarães); Ruben Neves 1; Alex Sandro 1; Evandro 1.

Naby Sarr (SCP)                autogolo.

 

Na Taça de Portugal

Jackson Martínez 1.

 

Na Taça da Liga

Evandro 4 (3gp); Jackson Martínez 2; Aboubakar 1; Quintero 1; Quaresma 1; Gonçalo Paciência 1.

 

Na Liga dos Campeões

Jackson Martínez 8 (1gp); Brahimi 6; Herrera 4; Aboubakar 3; Quaresma 3 (1gp); Adrián López 1; Tello 1; Danilo 1 (gp); Casemiro 1.

 

Partindo do princípio de que Julen Lopetegui será o homem do leme no regresso ao trabalho dia 6 de Julho, o técnico pode ver-se na incumbência de ter que construir uma equipa nova. A pressão será exponencialmente maior que até aqui, e Lopetegui terá a obrigação de lidar melhor com o dia-a-dia da Liga portuguesa e não repetir os erros do ano de estreia entre nós.

A nova época será como que uma batata a ferver nas mãos do FC Porto. Conseguirão os dragões passá-la a alguém?

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Miran Pavlin às 12:00



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