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CORTE LIMPO



Segunda-feira, 16.07.18

MUNDIAL FIFA RÚSSIA 2018 - Apreciação

FRACRO - panorâmica estádio.jpg

Pouco antes do fim-de-semana da Final, o presidente da FIFA Gianni Infantino proferiu as palavras fatais: "melhor Mundial de sempre". A nível organizativo só quem lá esteve pode comentar. Dentro de campo talvez não tenha sido o melhor Mundial de sempre, mas esteve lá muito perto. Foi, isso sim, um dos Mundiais mais impiedosos, senão mesmo o mais impiedoso de sempre, ao ponto de nada menos que quatro campeões continentais em título não terem sequer ultrapassado a qualificação, cada um deles em circunstâncias particulares. Os Estados Unidos ficaram do lado errado dos três improváveis resultados da última jornada do hexagonal da CONCACAF, que colocou o Panamá na fase final pela primeira vez na história; em África os Camarões foram um dos óbitos de um grupo da morte como poucos, com Argélia, Nigéria e Zâmbia; já o Chile, ironicamente, foi vítima de um protesto que ele próprio apresentou e que nas contas finais acabou por beneficiar o Peru; o menos cotado dos campeões, a Nova Zelândia, voltou a sucumbir à chaga de todas as qualificações da Oceania: é sempre necessário um play-off intercontinental. A ausência mais notória, no entanto, foi a da tetracampeã Itália, vergada no play-off europeu perante uma Suécia que já tinha deixado a Holanda pelo caminho. Dos detentores sobravam então a Austrália, que precisou desse play-off intercontinental para carimbar o bilhete para a Rússia, o campeão europeu Portugal, que terminou o seu grupo em igualdade pontual com o segundo classificado, e a Alemanha, campeã mundial, que pelo caminho venceu a Taça das Confederações. O Rússia 2018 assinalou ainda um conjunto de regressos após longa ausência, casos do Peru (após 36 anos), do Egipto (28 anos), de Marrocos (20) e de Tunísia e Arábia Saudita (12). Os candidatos à vitória final eram os nomes habituais da Europa e da América do Sul, com especial favoritismo para a Alemanha e para o Brasil. Também a Espanha era vista como favorita, talvez mais pelo estatuto e pela goleada sobre a Argentina (6-1) em Março do que por um futebol próximo do mítico tiki-taka de 2008-2012. As surpresas, essas, é que também passaram a fronteira entre a qualificação e a fase final, dando um toque de imprevisibilidade que estas provas nem sempre têm. Que o diga a Alemanha, nada menos que o quarto campeão em título a não passar dos grupos nos últimos cinco Mundiais. Só o Brasil de 2006 escapou a esta tradição moderna.
Certamente que o Panamá discorda desta afirmação, mas teremos assistido ao Mundial mais equilibrado de sempre. Não foi possível, no entanto, perceber se esse equilíbrio se deveu a progressos feitos pelos países menos cotados, ou a um abaixamento da qualidade global das selecções de topo. O beneficiado, sem dúvida, foi o (tele)espectador, que pôde desfrutar de um Mundial emocionante e recheado de golos, 169 no total (2,64 por jogo); apenas dois golos abaixo do recorde absoluto fixado em 1998 e 2014. Com fases finais assim, quão distante fica a memória das terríveis edições de 2002 e - principalmente - 2006, marcadas por futebol de grande enfoque defensivo. Em 2018 apenas um dos 64 jogos não teve golos, o que é absolutamente notável. Apesar da vocação atacante de praticamente todas as selecções, a percentagem de golos de bola parada foi enorme (41% só na fase de grupos), tornando-se mesmo num fetiche deste Mundial. Foram ainda batidos os recordes de golos obtidos de grande penalidade (21) e de golos na própria baliza, uma contagem que só parou na final, com o 12.º auto-golo.
Depois de em 2014 ter entrado em cena a tecnologia de linha de golo, esta edição marcou o arranque da utilização do vídeo-árbitro (VAR), com resultados globalmente positivos. Analisando caso a caso, saltam à vista dois aspectos: se por um lado o VAR nunca conseguirá ultrapassar a subjectividade intrínseca à aplicação de certas leis do jogo, por outro permite ao juiz de serviço ver com clareza aquilo que a velocidade do jogo não permite. Especialmente quando os jogadores se aglomeram na área. Outra inovação foi a introdução da quarta substituição em caso de prolongamento.
Na hora de todos os balanços, a reflexão mais profunda certamente terá lugar na América do Sul, que pela quarta vez consecutiva vê o título ficar na Europa; também está longe a alternância de décadas entre vencedores de um e outro continente. Pela primeira vez desde 1982 nenhuma equipa africana passou da primeira fase, enquanto da Ásia só sobrou o Japão, que assim pôde contar a história do melhor jogo deste Mundial, na eliminatória com a Bélgica. Já o México ficou pelos oitavos-de-final pelo sétimo Mundial seguido, um problema que talvez só tenha solução em 2026. As sortes dos dez representantes europeus na fase a eliminar foram, evidentemente, distintas. Portugal e Espanha caíram logo nos oitavos-de-final, quiçá sem grande surpresa face ao desenrolar da competição. Suécia e Rússia atingiram os quartos-de-final; os primeiros sem deslumbrar, os anfitriões superando expectativas, ao ponto de adiarem até às grandes penalidades a decisão do seu encontro com a Croácia - que já tinha ela própria eliminado a Dinamarca dessa forma. A Inglaterra também chegou mais longe que o esperado, vencendo pelo caminho um desempate por grandes penalidades 22 anos depois. A Bélgica foi a equipa mais entusiasmante, mas ficou-se pelo terceiro lugar.
A taça mais desejada ficou então nas mãos da França. É certo que os gauleses nem sempre deslumbraram, mas foram a equipa mais sólida da competição, e foi essa solidez que abriu espaço para os homens mais avançados fazerem uso das suas potencialidades. Ao longo da prova a Croácia fez por justificar em pleno a sua primeira ida à Final, mesmo que tenha precisado de três prolongamentos e dois desempates para lá chegar. A medalha de prata é, por si só, histórica, mas talvez não abra um precedente. Se os 88 anos de história do Mundial fizerem jurisprudência, esta terá sido a única vez em que os croatas actuaram no palco máximo do futebol mundial.
As próximas publicações trazem todos os detalhes sobre o que foi este Mundial FIFA Rússia 2018, grupo a grupo, jogo a jogo. Cada partida recebe uma nota, de acordo com a seguinte escala:

5 - futebol em estado puro, como diria Luís Freitas Lobo;
4 - não foi futebol em estado puro, mas foi mesmo assim um bom jogo;
3 - não foi um jogo para a história, mas já vi muito pior;
2 - a bola rolou, mas pouco mais fica para memória futura;
1 - estou arrependido de ter ligado a televisão;
0 - estou arrependido de gostar de futebol.

Nos casos em que o número inteiro não é suficiente, pode ser adicionado meio valor.

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por Miran Pavlin às 12:30




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